Um adeus

As árvores

As árvores

Elas não eram gente como a gente, mas eram seres vivos como nós, seres viventes. Um dia, um ano, umas décadas estavam lá, no momento seguinte não. Alguém sentiu sua falta? Eu mesma demorei tempo demais pra perceber que algo estava faltando na paisagem. Primeiro cercaram a área entre o Cemuni I (vermelho) e o III (verde), o que significa obra. Ficamos alguns meses tendo que dar a volta para entrar no Cemuni I pelo lado. Meio chato, mas nada demais. O que estavam construindo? Deus sabe. Algum prédio para alguma coisa. Dias atrás a cerca desapareceu, e eis que surgiu um lindo prediozinho de um andar, vazio, rodeado de janelas. Fiquei devaneando sobre ser um salão de dança! Bem que parece. Só alguns dias depois olhei, pensei, lembrei.

“- Deus! Aí ficavam as árvores curvadas!… Shany, você lembra das árvores curvadinhas? Você lembra? E você?

– Que árvore?

– Qual?

– Quê?

– Aquelas! Que se curvavam para fora da passarela, daquele corredorzinho ali, assim ó…

– Hãaam…”

Elas se curvavam mesmo, todas juntas, e dependendo do ângulo em que você olhasse era lindo, pra quem gosta dessas coisas. O prédio, obviamente, não será um salão de dança, e sim a biblioteca setorial do Centro de Artes. Sua construção faz parte da parceria firmada entre Prefeitura de Vitória e Ufes, que funciona mais ou menos assim: A prefeitura utiliza as áreas da Ufes que necessita para fazer suas obras de expansão da Avenida Fernando Ferrari e da nova Ponte da Passagem e, para compensar, constrói alguns prédios na universidade. Bem que estamos precisando de uma biblioteca para o nosso setor, só não entendi ainda por que a construíram do lado arborizado da passagem. O outro lado me parece ser exatamente igual, só que sem árvores, o que teoricamente iria poupar tempo e… Árvores!

Biblioteca Setorial do Centro de Artes

Biblioteca Setorial do Centro de Artes

Uma ex-professora minha de filosofia, Ubiracy Cota, atualmente gerente da Biblioteca Municipal de Vila Velha, certa vez me explicou que é necessário uma série de estudos antes de se construir uma biblioteca, e que para ela proporcionar uma adequada conservação dos livros depende de fatores como iluminação, ventilação e climatização. Às vezes o sol ou o vento batem diferente daquele lado então… Eu não sei. Toda espécie de explicação é possível.

Por um lado, não sou contra o desenvolvimento. Não sou contra o crescimento da Ufes. Se (problematicamente) existe mais gente no mundo agora do que existia antigamente, existe também mais gente querendo estudar, e é certo que não cabem todos na universidade – daí ano após ano se acotovelarem no vestibular. Além da demanda de vagas, ainda existe a necessidade de melhoria dos cursos, principalmente no que diz respeito à sua estrutura, como a aquisição de novas salas, laboratórios e, quem sabe, uma biblioteca setorial. Biblioteca é conhecimento. Eu sou a favor do conhecimento, e logo sou a favor da biblioteca e tudo de bom que ela acrescentará aos professores e estudantes do centro – aí me incluo. O máximo que puder usufruir dela, usufruirei! Fato.

 Então não. Não quero aqui repudiar o que construíram à custa de algumas árvores. Não quero aqui chorar a crueldade do corte. Já gastei muita lágrima e saliva antes, e para quê? Em que isso mudou o mundo? Em nada. Já passei dessa fase e hoje entendo que o ser humano – não importa o que se diga para ele – vai continuar se expandindo para todas as direções até que não caiba mais e o mundo se exploda. Lendo assim até parece, mas não sinto que me acomodei. Ainda sou capaz de brigar (e brigo) pela causa que tanto amo, a ambiental. Sinto é que perdi as esperanças de que a sociedade seja capaz de mudar significativa e suficientemente. Ser capaz ela até é, mas não me parece ser capaz de querer isso!

Árvore em frente à Biblioteca Central da Ufes

Árvore em frente à Biblioteca Central da Ufes

Pois bem, o que quero na verdade é que mais alguém se lembre que essas árvores existiram, simples, mas belamente curvas. Pouco ou quase nada sei sobre elas, e as pessoas para as quais perguntei idem. Sei que os troncos eram fininhos, as folhas pequenas e as flores esporádicas, de um rosa-branco tímido. Quem as plantou? Alguém as plantou? Quando?

Aparentemente são do mesmo tipo que a árvore (também magnífica) da frente da Biblioteca Central. Dessa conheço muitos admiradores. A verdade é que na maior parte do tempo as pessoas passam pelo mundo olhando sem ver. Vão de casa para a escola, da escola para o trabalho, do trabalho para casa e de Cemuni para Cemuni sem prestar realmente atenção no que está ao seu redor. Vemos o básico, o óbvio, e muitas vezes deixamos passar o belo, o improvável ou o profundo, por estes estarem nas entrelinhas, nos detalhes, quase ocultos aos olhos corriqueiros, ocupados demais.

As árvores estavam lá. Você as viu? Seus galhos finos balançavam fácil ao vento. Quando suas pequeninas flores caiam algumas se espalhavam pelo chão que tantos de nós pisávamos. Estava tudo lá. Em algumas manhãs havia barulhinhos de passarinhos. Já em certas épocas do ano apareciam nos seus troncos aquelas famosas casquinhas abandonadas de insetos que mudaram de exoesqueleto.

"All we do crumbles to the ground though we refuse to see. Dust in the wind, all we are is dust in the wind..."

"All we do crumbles to the ground though we refuse to see. Dust in the wind, all we are is dust in the wind..."

Como acontece cedo ou tarde com todos os que vivem (menos com a água-viva imortal Turritopsis dohrnii!), essas árvores partiram de sua vida fotossintética para um outro… Ciclo. Discussões sobre alma totalmente à parte, humanos e árvores no final da história viramos a mesma coisa: pó e lembrança. Dust in the wind.

A cada dia vão-se as árvores e vêm as bibliotecas e afins (troca justa? Êita, melhor eu não entrar nesse ponto!). O pó ficou, mas o que eu queria deixar aqui é a lembrança.

~ por LSReis em 22/05/2009.

5 Respostas to “Um adeus”

  1. Puta merda, cortaram logo essas? Eu vejo essas árvores desde que era pequeno e ia no trabalho do meu pai (meu pai trabalha(va) no laboratório de informática do centro de artes, ali do lado)! Eu não sei não se fizeram a biblioteca desse lado por algum motivo de arquitetura. Também não sou contra o desenvolvimento da ufes, e acho que, realmente, é inevitável que alguma seiva seja derramada, mas me parece que o critério dos paisagistas está sendo bem pobre. Na porta do IC1 tinha um pé gigantesco de jamelão que ficava num pedaço pequeno de terra onde não dá tamamnho pra construir nada, é só um canteiro. Eles cortaram a pobre árvore nas férias (junto com um pé de pitanga pequeno que tinha do lado) pra fazer um jardinzinho. O jardinzinho até que ficou bonito, admito, mas não precisava ter matado a pobre coitada que tava lá desde antes da gente…

  2. meu deus, que texto perfeito. deu até vontade de chorar.
    tadinhas das arvorinhas :(

  3. olha, você mencionou a tia da biblioteca que entrevistamos para o perfil do malini no 2º periodo!

    legal amiga :D

  4. […] da minha sala fez bonitinho o exercício proposto na matéria de Jornalismo Online, de bolar um perfil sobre alguém, ou melhor, algo que não seja de carne e osso, rs. Cada dia leio um mais legal. A […]

  5. aaaaaaaaa! eu juro que se você não tivesse falado, eu não ia lembrar… sabia que tinha alguma coisa ali, mas não lembrava delas…uma pena, né :~

    e essa na frente da biblioteca nem tem como não chamar atenção, né? é linda.:)

    adorei o post!!!

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