Edésio

meu_papaiFalar sobre ele é fácil e difícil. Ao mesmo tempo em que eu conheço a fonte e domino o assunto, temo não ter suficiente veia literária para transmitir numa simples crônica a magnitude da existência do sujeito em questão. Ele completa cinquenta primaveras, verões, outonos e invernos nessa próxima semana, mas eu o conheço só há vinte. E foi assim. Ele me carregava consigo quando eu estava para nascer, mas não na barriga, e sim na combi. Apesar de todos os mimos/amor/carinho dos primeiros dias/semanas/meses, acho que a primeira lembrança nossa que ficou foi dele me balançando no colo enquanto cantava “ouvi contar uma história, uma história engraçadinha, da tartaruguinha, da tartaruguinha” para tentar me fazer dormir. Enquanto isso, na minha cabeça se passavam mil imagens surreais da tartaruga, primeiro numa festa nas nuvens ao lado de bicharada, depois a queda do céu… O colo dele era macio, seu abraço peludinho. Na época ele tinha um bigode espesso, e era engraçado quando ele me beijava as bochechas. Talvez isso seja pessoal demais, rs, mas lembro que eu gostava de sentar no tapete da sala enquanto ele estava no sofá vendo jornal, pra ficar mexendo nos pêlos dos dedos do pé dele e perguntando se era barata! Vez ou outra hoje ponho a culpa nele de todos os pêlos indesejáveis que tenho, mas contraditoriamente fico orgulhosa quando dizem que a gente se parece. Nesse mesmo tapete e sofá, nessa mesma sala, enquanto ele aguentou o meu peso a gente brincou de serra-serra-serrador. Ali também assistimos juntos mil corridas e mil jogos, torcendo pra valer. “Pai, o fluminense tá ganhando?” – Eu perguntava, enquanto via os carrinhos zunindo na pista. A propósito, sou motivo de piada até hoje porque na época confundia quem era o Ayrton Senna e quem era o fluminense. O que eu sabia era o mais importante: a gente torcia por eles. Os outros detalhes me escapavam…

Ele tinha um CD do Gipsy Kings, ao som do qual a gente dançava e cantava quando estava alegre (ou para se alegrar!). Ele me ensinou a assobiar, e fazíamos competição de quem assobiava mais alto enquanto voltávamos da praia. Eu bem achava que estava ganhando, mas o fato é que ele sempre assobiou mais alto. A praia era tudo de bom, nosso programa de final de semana. É relevante também dizer que de vez em quando ele surgia aleatoriamente com alguma coisa nova lá em casa – o que permanece do mesmo jeito até os dias de hoje. O filme “Cachinhos dourados” foi uma delas, e o teclado outra. Nenhum de nós dois tocava n-a-d-a, no máximo “me dá, me dá, me dá Danoninho”, e mesmo assim ele comprou a caixa amplificadora de som, porque achou que nossa “música” tava muito baixa! Certo dia eu sentei com ele pra aprender a cantar o hino do nosso time de futebol, e fomos até a parte do “vence o fluminense com o verde da esperança”. Até hoje só sei cantar até aí!

Dávamos algumas risadas lá em casa quando ele ia à locadora e escolhia os filmes sozinho. Os dele eram de ação, e tenho a ligeira impressão de que já deve ter visto todos os do Steven Seagal… Pra mim e pro meu irmão ele costumava pegar os infanto-juvenis mais obscuros da locadora; mas até que, olhando pelo lado bom, graças a isso vi algumas pérolas (também no sentido bom) que quase ninguém mais viu. O primeiro livro com mais do que algumas frases por página que li sozinha ele trouxe num dia aleatório da semana, como diagnosticado acima. Se chamava “A Filha do Feiticeiro”, e só fui criar coragem de passa-lo adiante pouco tempo atrás. Para o bem ou para o mal, foi o livrinho que despertou a minha paixão por fantasia/ficção.

Lendo “Peixe Grande”, o livro de Daniel Wallace que inspirou o filme de Tim Burton (ambos ficaram fantásticos), veio a ideia de que escrever a vida do meu pai daria uma história tão interessante quanto! A infância do Edésio “pinga fogo” na cidadezinha de Rosal já é o meu capítulo favorito! Tem as aventuras que só o menino nascido na roça viveu… A corrida do touro brabo (que vem junto com o braço quebrado), o episódio da cobra no rio, das cabeças de abóbora mal assombradas, do carro pego escondido do pai (que desceu ladeira abaixo desenfreado e foi parar no meio da praça), da luz azul… Tem também as aventuras e os causos que só o rapaz saído da roça em direção à cidade grande tem pra contar. Tem comédia, drama, romance, rock’n roll… Só posso garantir que juntando tudo isso é uma história muito feliz, e bela.

Já dei spoiler demais! Resta saber se será uma biografia autorizada ou clandestina… ^^

Eu sei que é lugar comum falar “meu pai é o meu herói”, mas o que eu posso fazer se é literalmente a verdade? Pai, sem medo de ser piegas, você é o meu herói, meu astro do rock, meu exemplo de homem, de pai, de trabalhador e de marido. Eu te amo muito muito demais, e se pudesse desejava a Deus que você vivesse mais cinquenta vezes cada estação do ano! Sempre e até o último minuto com muita saúde, pescando na maior tranquilidade, tomando o seu vinhozinho, fazendo a sua caminhada, lendo os seus livros, tomando seu banho de mar, cercado dos amigos que tanto gosta, e que tanto gostam de você, tendo também ao lado a mulher amada, viajando, conhecendo muitos lugares novos e, é claro, filmando tudo pra eu ver depois!

Feliz aniversário =)

~ por LSReis em 19/06/2009.

10 Respostas to “Edésio”

  1. Gostei muito da homenagem, ainda mais vindo da minha querida filha
    A vida nos ensina muitas coisas. Acho que em toda nossa caminhada, estamos sempre aprendendo. Eu e Marise tivemos esta alegria de ter Letícia e Luiz Henrique. Filha, o Papai também te
    ama muito e com certeza, você vai ter muito sucesso pela frente.
    Um abração do Papai. Deus te abençoe.

  2. Letícia você é linda!!!!!!!!
    Me emocionei ao ler essa crônica, as lágrimas vieram ao decorrer do texto, principalmente naquelas partes em que eu me sentí parte da história, e a figura do seu pai se confundiu com a imagem do meu!
    Que Deus me abençoe me dando uma filha maravilhosa como você. Saiba que eu te admiro muito e vejo em você um fio de esperança para esse mundo em que vivemos.
    Que todas as famílias do mundo possam, um dia, sentir um pouquinho desse amor e dessa paz que reinam no seu lar, e que nós nunca nos esqueçamos que todas essas bençãos vêm do nosso Senhor Jesus, Aquele que nos deu o dom da vida com sua morte e ressurreição.

  3. Je n’ai mot..estupendo!
    faço das palavras de Filipe as minhas. Crônica linda, singela, doce, pura (lembrou da música da coroação tb?rs), surtout touchante!! e como Lew ^^
    fantástico. Adorei a barata e o dedo do pé, e tudo o mais.

  4. Olha, esse tio merece tudo isso e muito mais!!!!!!!!!!!! Ele é um dos caram mais maravilhosos que eu já conheci na vida!!!!!!

    Amamos você!!!!!

    Dri, João Pedro e daniel.

  5. aimeudeusu, você é linda :)
    e ficou lindo! um doce…

    quero meu paizinho aqui tambémmmmmm!

  6. É muito bom ter histórias para contar, coisas para lembrar, porque a vida se torna mais prazerosa…
    Eu quero fazer uma homenagem dessas porque tenho muitas e muitas histórias engraçadas para contar…
    É um prazer ter um irmão tão maravilhoso como você é!!! Você merece tudo de bom!!!!

    Que Deus abençoe muito você e sua família!!!
    Edna e Luis.

  7. tô chorando. isso resumo tudo o que senti lendo essa crônica!

    você é demais. te amo.

  8. Ai, Lets…É verdade!
    Tio Edésio é um Tiozão!!!! Lembro do dia em que eu estava dormindo na sua casa naqueles colchonetes de camping que só sua mãe tem (rsrs) e seu pai chegou na porta do quarto chamou sua mãe e disse:
    – Marise, olha o tamaninho da Letícia..E olha o TAMANHÃO da nina!!
    Éh..a prima gordinha também tem história pra contar sobre o Tio Edésio!
    Pena não poder estar aí junto com ele nessa data em que faz bodas de ouro com ele mesmo, mas eu o amo muito!
    PS.: Silas Malafaia forever!!!

  9. Juro que chorei..
    sozinha..aqui na frente do computador!!

    Perfeito!
    Feliz aniversario pro papito aí!!
    ;*

  10. Muito lindooooooooooooooooooooooo

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